RENTABILIDADE DE APOSTAS NO BRASIL

Na tradição brasileira, o apostador ganha de longe dos investidores na bolsa de valores. Não seria preciso dizer que 14% da população apostou em 2023, frente aos 2% que aplicam seus recursos em bolsa. Antes de qualquer coisa, passe na frente de uma franquia da Loteria Esportiva. Quem está ali, não foi apenas para pagar contas, são pessoas que possuem o sonho de ficar ricas, da noite para o dia. E pouco importa que você diga a elas que seriam necessários 92 anos realizando a mesma aposta para que a probabilidade lhe favoreça e a fortuna bata em sua porta.

Sonho é sonho. O fato é que as ofertas aumentaram exponencialmente, com a abertura oficial do nosso mercado virgem para grupos econômicos das BET’s. De cara, o primeiro bilhete premiado tem dupla face e vai para o Governo. Esse sim, ganha na concessão, é sócio na partilha com as empresas e ainda tira mais um taco da ínfima minoria que eventualmente ganhar alguma coisa. É muita moleza pra não fazer nada. Digo isso porque nossos sistemas de fiscalização são pífios. Imagine um lugar onde os golpes digitais representam mais de 8 bilhões de reais de prejuízo para a sociedade, sem que esse mesmo governo mova um dedo para reduzir esse buraco junto as vítimas da sociedade?

É quase impossível acreditar que num ambiente vulnerável como esse, terra de Marlboro, e com uma política meramente voltada para arrecadação, sem contrapartidas eficazes, tenhamos melhor sorte. O cenário pode até ser aparentemente favorável, tal é o volume de propaganda que essas empresas vem aplicando faz anos no Brasil, em busca de ocupar a melhor posição num mercado virgem. Essa dinâmica é bem conhecida. Uma vez estabelecidas, com grupos menores sendo incorporados aos grupos maiores, teremos um oligopólio, um cartel, agenciado e comandando alguma Agência Governamental.

Peraí, eu escrevi Agência? Nesse caso, infelizmente para o consumidor, nem isso. Uma bagunça tremenda, com pedaços no Ministério da Fazenda, entre outras aberrações organizacionais, frutos do improviso, despreparo e urgência para abocanhar por três lados a bufunfa e tapar buracos de uma ineficiência a céu aberto, que muitos preferem não enxergar.

Bons tempos em que certos cuidados como a criação da ANATEL para regulamentação do setor de telecomunicações deu um rumo razoável a privatização do Sistema Telebras. Não vimos o mesmo cuidado ser tomado no campo das apostas, ao que se acrescentam muitas contradições. Uma delas, mais gritante para quem é carioca, é ver que ao lado desse mundo paralelo, ainda temos que conviver com a ideia de que o Jogo do Bicho é contravenção. Se você tentar explicar isso a um gringo, tenha certo, ele vai te mandar pra algum hospício.

Atualmente, só a caderneta de poupança ganha do setor de apostas, com seus 25% de brasileiros deixando seu dinheiro render lá. O coitado ainda não foi informado que a inflação medida pelo IPCA já não mede mais nada. Infelizmente, o cidadão da fila da loteria não sabe o que é IPCA-15, nunca ouviu falar de IGP-DI e não tem noção do impacto da valorização em 30% do dólar nesse último ano, em relação a nossa maltratada moeda. A contaminação sistêmica nos preços está retratada nas placas de ofertas do Hortifruti.

A rentabilidade no mundo das apostas depende fundamentalmente de muito mais do que sorte. Vamos começar dizendo que é preciso aprender a fazer contas. Pode começar por aqui.