A TEORIA DO CACHORRO MAGRO

A Teoria do Cachorro Magro é uma das frases e metáforas mais famosas do lendário técnico brasileiro Telê Santana. Ela sintetiza perfeitamente a filosofia de jogo de Telê sobre competitividade, foco e a ilusão de que o talento sozinho ganha jogos.

O Conceito
A metáfora funciona da seguinte maneira: Se você colocar um cachorro magro (com fome) e um cachorro gordo (já alimentado) diante de um osso, o cachorro magro vai correr com muito mais avidez, determinação e agressividade para alcançar o osso, porque a sobrevivência dele depende daquilo. O cachorro gordo, por já estar satisfeito, vai caminhar preguiçosamente e perder a disputa.

A Aplicação no Futebol
Telê Santana usava essa teoria para alertar seus times — especialmente após grandes conquistas — sobre o perigo da acomodação
O perigo do “Cachorro Gordo”: Quando um time ganha um título importante (como o São Paulo do início dos anos 90, que foi bicampeão da Libertadores e do Mundial), a tendência natural dos jogadores é relaxar, achar que são invencíveis ou diminuir a intensidade nos treinos e jogos. Eles se tornam o “cachorro gordo”.
A fome do “Cachorro Magro”: O adversário que entra em campo contra um campeão entra com a “fome” do cachorro magro. Eles querem provar seu valor, correm o dobro e dividem todas as bolas como se fosse a última.
O Legado da Frase

Para Telê, o jogador de futebol profissional nunca poderia deixar de ser um “cachorro magro”. Ele exigia o máximo de perfeição técnica e dedicação tática, independentemente de quantos títulos o atleta já tivesse na carreira. Essa mentalidade de manter o grupo sempre faminto por vitórias foi o que permitiu ao São Paulo de Telê se manter no topo do futebol mundial por tanto tempo sem perder o foco.

Na linguagem empresarial, chamamos isso de ZONA DE CONFORTO. Seria injusto chamar de ZONA DE DESCONFORTO o oposto. Prefiro considerar as etapas seguintes como NOVOS DESAFIOS E REINVENÇÃO DA AGENDA DE PROPÓSITOS.

A esse conceito, acrescentei a noção de “CLUTCH PLAYER”, termo utilizado no basquete quando nos referimos aos jogadores decisivos, no momento derradeiro de uma partida. Esse ano, independentemente dos números, elegi o Jalen Brunson, que terminou campeão pelo time de NY.

Acrescentei ainda um problema atual, que incomoda a muitos amigos talentosos para os quais a idade avançada chegou e que se tornaram vítimas do preconceito do etarismo. São desqualificados pela idade, embora demonstrem que a longevidade no esporte pode ser surpreendente. Eis aí, Lebron James, Lukaku, Messi, Cristiano Ronaldo, Paulo César Carpegiani no Flamengo e Millá pela equipe de Camarões na Copa de 1994, por exemplo.

Um bloco de partidas repleta de cachorradas. Temos assistido a vontade superando a idade, no quesito resultado. Pelo menos nessas primeiras etapas e no mata-mata. Estádios não climatizados com temperaturas altas trazem dois resultados negativos, decisões erradas e diminuição de distâncias percorridas. Tive a oportunidade de ser cobaia dessas condições no último verão no Rio de Janeiro. Fato agravante é a idade, sabemos que o tempo de regeneração exigido é maior para os mais velhos.

Se isso é verdade, como explicar a fome dos mais velhos? O caso do Messi é mais fácil, depois do Qatar foi para os EUA e seguramente está melhor aclimatado que qualquer outro atleta da Copa do Mundo. A pergunta que fica é, como lidar com a fome de cachorros mais velhos, para garantir que ela alimente a vontade dos mais novos? Uma das medidas mais simples, pouco compreendida pelos torcedores, é que o craque em seu último ato seja utilizado apenas por alguns minutos. Esse método ficou facilitado pelas cinco substituições permitidas atualmente. O caso do goleador da Bélgica, que pouco jogou esse ano em seu clube, comprovou essa tese na partida de hoje contra o Senegal. O time é um sem ele, e outro com ele em campo. Já havia provado isso numa partida anterior, sobre a qual escrevi a respeito da envelhecida equipe belga.

Esse tipo de estratégia não é nova e já foi usada no passado. A minha memória afetiva do futebol lembra perfeitamente das partidas de Paulo César Carpegiani em sua passagem pelo Flamengo, e do inesquecível craque Roger Milla da seleção de Camarões, que aos 42 anos defendeu sua seleção em 1994. Tenho dito que 10 minutos de um craque valem mais do que 90 minutos de um perna de pau, ou de um jogador mediano. Isso é muito mais relevante na hora que, como cantou Bezerra da Silva e o Rappa, “o bicho pega”, composição do poeta das estrelas, Marquinho PQD. Veja por exemplo o caso do Haaland nessa etapa, quase não toca na bola, mas quando o faz é letal. Seja novo ou velho, o que conta é a fome. Ela pode até não ganhar o jogo, repleto de variáveis fora de controle, mas pelo menos a torcida vai aplaudir a fome de quem mordeu pra ganhar.

Os velhos bem guardados para uma hora decisiva é inteligente. A Noruega poupou seu monstro contra a França, que goleou, numa partida que valia apenas posição na tabela. Descanso e regeneração para alta performance, intervalos mais longos dão mais fome. A fome de bola e a fome de gols que vemos nos decisivos esteja espelhada num dos destaques desse meio de vagas decididas com aquele algo mais dos decisivos, como Harry Kane, nome da partida contra o Congo. Diante de um goleiro que pegou quase tudo até aqui, só tipos famintos fazem o que ele fez. Seu dois gols são aula. O primeiro deles diz respeito ao lançamento num espaço no ar vazio, para onde o artilheiro corre e cabeceia sem marcação. É uma mágica que faz lembrar o personagem Flash, também presente em lances geniais como os do Ninja francês já recordista, em Messi, para falar daquilo que se conta nos dedos, também presente no diabólico artilheiro do time mexicano, Quinones. Pela televisão parece muito fácil chegar com os pés antes do adversário e colocar a bola nas redes. Ledo engano.

O técnico da Bélgica teve o culhão necessário para tirar medalhões e virar o jogo com o velho e bom goleador. De uma só vez sacou Bruyne e Doku, já tinha botado nas mãos de Lukaku e foi pro tudo ou nada. O segundo gol do Senegal, logo no início do segundo tempo foi uma obra de arte, uma cópia da década de 1970. O passe de longa distância dado por Niakhate não era fácil de se pegar, mas Ismaila acomodou no peito, ajeitou o corpo fino molengo em uma corrida para o gol, sendo assediado por um defensor que tentava retirar a bola. com a ponta da chuteira, não conseguiu. Um pouco desequilibrado, tal como um guerreiro africano com sua lança, dirigiu a perna para a bola e tocou nela com precisão certeira, num ponto indefensável da balize, deixando o melhor goleiro do mundo sem ação.

Por uma dessas coincidências que ninguém explica, essa semana assisti o Gérson contando como fez o lançamento ao Pelé, num lance genial, onde a parte mais importante não havia sido o lançamento do canhotinha, nem a matada no peito. O próprio rei do futebol contou ao parceiro tricampeão que a troca de passada é que teria sido decisiva para proteger a bola se desvencilhando do marcador e chutando com a perna oposta a que a jogada naturalmente exigia. Esses atos que são feitos de forma “impensada” e com a naturalidade da inteligência do corpo de um gênio é para um. Pelo menos era o que eu achava até hoje, mas a variação gerou um lance genial, a ser colocado na coletânea de jogadas maravilhosas que a história do futebol de todos os tempos assistiu, mesmo que na derrota de Senegal, que perdeu seu melhor goleiro e com ele a partida numa falha bizarra na saída num lançamento belga.

Aqui entre nós, os cachorros velhos andam com fome pelos gramados da Copa. Dizem até que alguns ainda vão comer a bola, no jargão dos boleiros, e eventualmente furar a trionda, por conta das necessidades de fazer os minutos passarem quando estiverem em vantagem, querendo que a partida acabe para ganhar e poder tomar uma água de coco, num daqueles bordéis descritos pelo poeta Aldir Blanc. Mas isso fica pra próxima, mais perto do sonho do HEXA.

A frase de origem desse texto é uma adaptação de um papo com um amigo botafoguense, que já jogou muita bola, e que por ocasião da prorrogação de Senegal e Bélgica ouviu meus comentários envolvendo a entrada de Lukaku, carrasco do Brasil em 2018. A idade chega, mas dez minutos de um “Clutch Player” – termo usado no basquete, e que decidiu o título da NBA esse ano pelo NYK foi Jason Brunson – resolvem…