Durante essa montoeira de partidas realizadas até aqui, algumas cenas chamam a atenção. Não há como negar, como tem jogador perna de pau nos campos profissionais da atualidade. Há também uma escassez de novos talentos, então o que resta fazer é apreciar com uma certa moderação de minutos, as exibições de gala dos mais velhos, que estão prestes a pendurar as chuteiras.
É um equívoco centralizar as responsabilidades num único jogador. Isso torna tudo muito previsível, basta concentrar marcações dobradas e neutralizar um ponto que nada mais acontece e isso esteriliza um time inteiro. O Brasil já sofreu disso, distribuir é preciso.
Se já não tínhamos um meio de campo de primeira prateleira, a situação foi piorando pelas circunstâncias. O caso de Paquetá já veio com um pacote pronto, pois na chegada ao Flamengo, entre idas e vindas, num jogo de negociações infindáveis, algumas etapas foram queimadas para que o atleta se apresentasse em campo de forma imediata, afinal é cria rubro-negra. A acusação de envolvimento com manipulação de jogos também afetou de forma terrível a carreira do atleta. Todas essas coisas somadas, dá pra dizer que sua convocação foi um milagre. Um jogador de virtudes, mas sem a velocidade que estamos assistindo nas partidas de uma boa parte das seleções aponta que o futebol tem outros caminhos.
Sem muitas opções de destaque para uma parte do campo que decide, entraremos em desvantagem nesse aspecto. Perderemos em altura, no exato momento em que o Brasil pegará um time muito alto e veloz. A temperatura é um fator que ao menos em teoria deveria nos favorecer, horário e local são ventos que sopram a nosso favor. New York é uma cidade dominada por brasileiros e isso pesará em algum momento.
Diante da exaltação a toda mitologia Viking não tive como esquecer uma viagem para a Noruega que planejei fazer mas acabei enviando dois emissários em companhia de um grande amigo cujos pais moravam na terra de Edward Munch. Seu innsuperável quadro “O Grito” era um de meus objetos de desejo, na tão esperada visita a Oslo. Não aconteceu, ganhei de presente as memórias fotográficas de Milton Lobato, que explorou muito mais as belezas naturais do lugar e descreveu com precisão a beleza homogênea das moças bonitas do lugar, cujo vigor nas subidas pelas montanhas explicam o quanto de vigor e saúde aquele lugar esbanja. Despenhadeiros e água cristalina, uma visão de dar inveja, adicionadas ao método para construção de embarcações que entraram para a história com seus Vikings simbolizando força. Como esquecer dos caçadores de auroras boreais?
Como esquecer do Haaland? Um trator que só pensa numa coisa: fazer gols de qualquer jeito. Conheci a grande sensação pelas mãos do Manchester City, no ano que ganhou tudo e para mim até merecia o prêmio de melhor do mundo. Saindo de lugares como Egito ou Noruega, certos atletas entram em desvantagem numa disputa por votos. O centro elege o centro. Há que se lembrar que o time de estrelas inglês não se parece com a Noruega. Aliás, nem o time nórdico se parece connsigo mesmo nessa Copa. Na tabela da FIFA aparece com 5 últimos resultados, sendo 4 na Copa, um empate, uma derrota e três vitórias. Na derrota jogou contra o time mais forte do ranking, a França e levou uma goleada, que não podemos levar em conta, como alguns querem fazer. Já classificados, o técico poupou os seus atletas, muito sabiamente.
Na impossibilidade do Brasil ter um rompedor, nos moldes de um Ronaldo Fenômeno ou Adriano, tive que trazer reforços xamânicos para guardar o plantel. Os guardiões da floresta amazônica são um bom antídoto para encarar toda essa mitologia vinda do gelo. Foi justamente na Amazônia que o Monstro Verde, fabricado em laboratório por exposição a radioatividade que nasceu Hulk. Estive com ele na véspera da partida. Expliquei a ele que o Brasil já tinha pulado para o 5o lugar no ranking da FIFA, com um empate e quatro vitórias nesses embates, o que gera uma curva de tendência ascendente.
No cinema o longa sobre o personagem da Marvel foi gravado no Brasil. Assisti a todos as suas versões, considero o personagem da Marvel o mais brasileiro deles, a começar pela cor. O filme de 2008, “O Incrível Hulk” foi filmado na favela de Tavares Bastos, comunidade onde fica a sede do Bope. Em busca da cura para sua transformação, Bruce Banner se escondeu na favela para pesquisar a cura para a sua transformação em Hulk. Acabei escolhendo até uma trilha sonora para esse confronto. Antes disso porém, tive uma manifestação de fúria e paixão, por ter uma enorme identificação com o personagem que se torna indestrutível e fora de controle, quando os picos de adrenalina surgem, nas mais diferentes situações de stress.
É verdade que para ser Hulk não se pode controlar a raiva, praticar yoga, ou sequer gritar. Mas então como explicar Haaland e seu autocontrole com técnicas de meditação, um ser de força animal, ao lado do quadro “O Grito” maior obra de arte de sua cultura, de seu país? A força desproporcional liberada decorre de uma só atitude, que é instintiva: se a simbologia viking se apresenta como a força sincronizada pelo ritmo ditado pelo tambor, a nós é mandatário entrar em campo sem medo de vencer com os pés a remada com as mãos. Usar os pés com ousadia, alegria e um pouco de deboche, pode ser o início de mais uma escalada pelo Planalto Amazônico.


