Nessa Copa do Mundo, acordei para o fato de que a concentração dos jogadores de futebol concentrada na Europa traz como consequência um nivelamento nas partidas que nos leva a crer numa homogeneidade jamais vista. Mas na corrida pelo título, a coisa fica muito parecida com o que já acontece com as modalidades de altíssima performance olímpicas. Não custa lembrar, numa piscina, as diferenças entre os tempos já não cabem nos segundos, os relógios precisam dos centésimos para se chegar ao vencedor, tamanho é o equilíbrio. É aí que entram as potências.
Foi esse raciocínio que levou a quase totalidade da imprensa nacional a se render ao conceito de favoritismo, mas espertamente disparando em múltiplas direções. Flertaram com os mais fracos – que já não eram tão fracos quanto pareciam no papel – enalteceram o papel da qualidade de elencos de países educados e com IDH altíssimo, misturaram de tudo, um verdadeiro número de ilusionismo, para que no final, tudo parecesse muito lógico e que o comentário dos resultados surgisse como a senhora da razão. Fiz a opção por escrever antes dos fatos ocorridos, para me olhar no espelho do futuro do pretérito e me aprovar ou condenar pelos graves equívocos cometidos. Creio que até aqui, escapei de passar vergonha, atribuo isso a sensibilidade, concentração e muito estudo do que chamarei aqui de fatores aleatórios associados as premissas matemáticas.
Faltando algumas horas para o derradeiro enfrentamento das 4 seleções nas semi-finais, e já tendo dissecado o algoritmo de ELO (Prof. Arpad E. Elo is dead at 89; Inventor of Chess Rating System, falecido em 5 de novembro de 1992) como um bom balizador de resultados baseados em disputas de um lado contra outro, de equipes individuais ou coletivas, seguirei agora por outro caminho.
O efeito jejum. Sabemos que a prática do jejum tem raízes milenares, acompanha a humanidade em matéria de práticas religiosas em busca de espiritualidade, permitindo elevação de consciência e desapego material. Já os efeitos envolvidos na saúde andam muito em moda, uma vez que é associado a uma espécie de DETOX para o corpo, pela autofagia de células, readequação metabólica com eliminação de graxas corporais e uma maior lucidez além de redução de níveis inflamatórios existentes no corpo.
Sendo o jejum intermitente, como o nome já diz, uma pausa periódica, é leviano achar que jejuar tenha a mesma importância de se alimentar. Trata-se apenas de uma etapa de manutenção do corpo, aliás como se dá até entre as refeições, afinal, ninguém come o tempo todo. Muito bem, assim é com as competições, num sentido mais específico. Não seria justo que só um ganhasse todas as competições, esse predador seria inútil para a formação de um ecosistema, destruiria a motivação de conquista entre os participantes.
Olhando para os quatro times com chances matemáticas iguais, antes do apito ser soprado, é importante saber qual o número de anos que cada um jejuou. Adicionei a essa questão uma importante no meu entendimento, qual seja, se alguma seleção já havia ganhado mais de uma Copa do Mundo seguida. A resposta é fácil, a Itália, ganhou as Copas de 1934 e 1938, enquanto o Brasil de Pelé e Garrincha as de 1958 e 1962. Uma outra questão se coloca, ninguém jamais conseguiu ganhar três anos consecutivamente, o que me parece ser um tabu, um desafio e uma questão probabilística relevante para quem anda por aí dando palpites.
A Argentina está faz 4 anos distante da conquista, como a atual campeã. Os anos passados pesam para aqueles sem reposição de elencos mais velhos? Não necessariamente. Mas o fato de ter se “alimentado” a menos tempo pode levar a uma soberba e acomodação prejudicial a esforço decisivo. A seguir temos a França, com 8 anos jejuando, mas com um detalhe que devo ressaltar, que a equipara a Argentina, uma vez que esteve na partida de decisão no Qatar. De um lado, o sabor da derrota, quem sabe estimulando uma espécie de “agora vai”, como aconteceu no basquete com o time de New York. Há uma certa soberba pairando sobre os franceses, que estarão encarando a Espanha justamente no dia da Queda da Bastilha. Afinal, cairá a bastilha francesa e seus soberbos?
No grupo mais atrás, dessa perspectiva, a Escola de Futebol Espanhola, que revolucionou o futebol inglês, pelas mãos de Guardiola e seus discípulos, a partir do Manchester City. Os 16 anos de jejum, ao contrário da espiritualidade do Caminho de Santiago de Compostela não cai muito bem na conta dos 800 km saindo da França.
Aqui me parece a encruzilhada da espera do nunca. O azarão achincalhado por ser o país que inventou o futebol, que possui atualmente a Liga mais rica e competitiva do planeta, parece ter chegado ao limite de suas forças para se perpetuar como não vencedora. Assisti a quebra do tabu no Estádio Asteca, de um México sem levar gols, com torcida e jogando o mais belo futebol dos últimos anos, perder no tempo normal para os ingleses com 10 em campo. Ali, no meu entendimento, a Inglaterra se credenciou para ser campeã e se libertar de um fatídico jejum, para ao som de Wonderwall, pelo menos chegar até a final. Não podemos esquecer que foi a 4a colocada em 2018 na Rússia, um aquecimento nas refeições de menor peso calórico, mais encorpada e equilibrada nessa oportunidade de ouro, num país que outrora colonizou e se tornou a maior nação do mundo.


