A DIREITA DE MESSI E SEU SOCO NO AR


Há muita simbologia na história do futebol. Usando a referência das referências, o maior jogador de todos os tempos e maor atleta do século XX, o Rei Pelé, temos um legado surpreendente. Vou começar pelo número 10 na camisa. Coube a Pelé transformar em sinônimo de talento, protagonismo e liderança a camisa, após receber de forma aleatória o direito divino de usar em 1958 a 10 da seleção brasileira. Apenas o jornalista Iata Anderson, cuja alcunha foi “o amigo do rei”, possuía todas as camisas 10 autografadas. Após reinar por décadas, vestindo a 10 por todos os times por onde passou, surgiram sucessores de capacidade futebolística extraordinária que conquistaram esse direito. Entre eles, Maradona, Zico, Platini, Baggio, Zidane, Ronaldinho Gaúcho e Messi.

O chute fatal de quem faz o gol é uma marca dos melhores camisas 10 da história e equivale ao soco direto no queixo do adversário no boxe. E aí, não importa se vai ser com a direita ou com a esquerda, o importante é levar o oponente para a lona. Há os raros, que chutam com as duas pernas com a mesma qualidade, há uma maioria que só usa a direita para o golpe e uma minoria de canhotos. Pelé reinou em perfeição, desenvolvido com a psicomotricidade. Mas há os gênios com supostos defeitos, nascidos com as pernas tortas, como Garrincha. A receita de bolo não esperem de um gênio, porque genialidade não é copiável, não dá pra clonar, tampouco aplicar como referência de país, ideologia ou método. Nascer com um dom especial exige apenas uma vida que ofereça o caminho da plenitude. Nem todos nascidos com esse presente alcançam essa condição.

O soco do violento esporte que é o boxe, foi parar no ar, pelos punhos de Pelé, que inventou esse gesto na forma de comemoração de seus gols, em 2 de agosto de 1959, numa partida na rua Javari, entre Santos e Juventus de SP. A marca me lembra muito o que se fez depois no basquete, que adotou na NBA o salto de um de seus maiores atletas, Michael Jordan. Agregar a camisa 10 ao gesto de comemoração com soco no ar deixa o espaço reduzido a poucos. Nessa Copa do Mundo de 2026, estamos caminhando para reeditar o caminho do Rei pela obra de Messi. O craque argentino se apresenta liberto, e sem que ninguém saiba – talvez nem mesmo ele – foi plasmando naturalmente toda a essência daquele que criou antes de todos. Sua comemoração nessa última partida contra a Inglaterra foi imantada pela aura do rei, que certamente o tem visitado, dizendo: “lembre-se de mim”.

Um tempo antes da assistência dada a Lautaro, era claro que os bloqueios ao golpe de esquerda de Messi aconteceriam com maior rigor, uma vez que previsível. É provável que os inglêses nunca tenham acompanhado em seus estudos, as raras vezes em que Messi usou a perna direita. A verdade é que o canhotinho usou de forma decisiva a perna supostamente ruim, que podemos dizer não ser a preferida, mas sabe usar. Lembro perfeitamente que na Copa do Qatar ele finalizou de direita na final contra a França, durante a prorrogação. Os presentes nos estádios já testemunharam o poder da direita, desde 2007 contra o Getafe. Champions League com Barcelona e Real Madri 2011, Copa do Rei de 2015 no confronto Barcelona e Athletic de Bilbao e Champions de 2015 com o jogo Barcelona e Bayern de Munique. Dessa vez, nada de gols, apenas assistência, colocando com a mão na cabeça do melhor centro-avante da Argentina, a quem muitos atribuem existir desavenças e outras preferências por parte do gênio. Convenhamos, ele coloca quem quiser no time, mas não é o caso.

É chegada a hora da redenção pelo gol perdido em 2014, na final contra a Alemanha, no início do segundo tempo. Um último obstáculo pela frente, o mais difícil deles. Tenha certo, nenhum jogador do futebol atual conhece melhor a realidade americana que Messi. Até nisso ele seguiu o seu principal mentor, o Rei Pelé, por ocasião de sua passagem pelo Cosmos, levando de forma pioneira o futebol para o lugar onde se dará a final nesse 2026.