A TOURADA DE NEW YORK


Uma decisão monolingue. O idioma da Copa do Mundo foi o espanhol. A cultura hispânica desenvolveu ao longo de décadas uma forma de jogar bola influenciada pela importação de Johan Cruyff. Com ele toda a cultura do carrossel holandes que colocou na roda a seleção brasileira em 1974. A ideia de uma laranja mecânica, de um filme envolvendo condicionamentos, encontrou o sangue quente da península ibérica, nasceram discípulos que se espalharam pelo futebol mundial, numa diáspora que chegou até a maior liga do mundo. A Inglaterra também entrou na dança.
Do nosso lado, no hemisfério sul, os argentinos representam a conexão com esse momento em ambições e fornecimento de matéria prima para a Europa. O cenário projetado já tinha um Messi na Casa Branca com a seleção tratada como a favorita e campeã. Esse caminho encontrou um técnico bem preparado, compreendendo as restrições e fazendo apostas dentro delas. Entendida a superioridade do adversário e olhando para os números, ele sabia que a disputa por penalidades seria a melhor chance de levantar a taça. A Espanha vinha traumatizada de derrotas nas disputas desse tipo e a Argentina com seu goleiro garantindo o título no Qatar em cima da França. Um pensamento lógico, que ainda tinha como trunfo mexer com a ansiedade espanhola, uma hipótese. Com três títulos e almejando a quarta estrela, e a aproximação ao Brasil, chegou pelos pés do talento e botinadas quando via que na bola não seria suficiente. Alguns chamam isso de raça, não vejo Paredes como jogador de futebol, quando a decisão é usar a violência. Foi ela que fez ruir a caminhada para as penalidades. Com um expulso, tudo foi por água abaixo, estava tão perto…

A tourada de New York encontrou um toureiro controlando a arena. A frieza e a técnica de Rodri no meio, o comando das ações e as poucas chances de estocadas. Há coisas no futebol que não serão compreendidas facilmente, a não ser adotando o contraditório. Como aceitar um campeão em 1978, que precisou de 4 gols para avançar e ser campeã, e foi. Não bastasse isso, em 1986, nasce o deboche da mão de deus, com o gol de mão de Maradona. Mais um título. Comparar a trajetória argentina com a brasileira é impossível, só mesmo na cabeça dos torcedores, onde tudo é possível e admissível.

A partida ficou bem abaixo da expectativa. Uma decisão onde os números apresentavam um falso massacre. A Espanha de Yamal não viu um jovem Pelé em campo, decisivo. Um dia saberemos as verdadeiras razões envolvendo o baixo rendimento do que alguns imaginam ser um “novo Rei”, que não nascerá. Como explicar isso aos que não tiveram o privilégio de assistir a lenda nascer? A Argentina esteve prestes alcançar seu objetivo, passando o tempo normal da partida sem dar um chute a gol. Como explicaríamos na história do futebol, que uma Copa com 48 seleções de países, foi ganha por um time que numa decisão não atacou. Equivaleria ao fim do futebol enquanto esporte competitivo, uma espécie de cara ou coroa.

No final da peleja, 20 chutes da Espanha contra 2 da Argentina, mas para o gol foi 12 a 0. Me chama atenção o aspecto disciplinar, que definiu a partida. Nenhum cartão para os toureiros e sete cartões para los hermanos, sendo um vermelho e os demais amarelos. Vamos combinar, a Argentina é um time que bate e mal perdedor. Ao final da partida, uma pancadaria que me afasta cada vez mais dos estádios, onde as tradições mais primitivas são incentivadas. Na prática, e para efeito dos discursos para a história, a partida terminou empatada…

Gostei disso, já escrevi a respeito: “Una buena persona escucha, una buena persona es capaz de salir del yo para pensar en el nosotros, una buena persona es humilde y eso le ayuda a aceptar enseñanzas. Una buena persona genera buen ambiente, empatía, una buena persona cree en respetar al que no es como tú, una buena persona es un ser más preparado para triunfar sin humillar a nadie por el camino.”, foi escrito sobre os ensinamentos do técnico da Espanha, pelo Antonio Banderas.
O Brasil é um enclave inconveniente na América do Sul, que deu certo. Aliás, com fortes pretensões ocultas de hegemonia imperialista, fronteado por falantes do espanhol.