“Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã”, música de Chico Buarque, Cotidiano.
Me pergunto se as coisas se repetem de forma tão igual. Iguais, porém diferentes.
Os preparativos para um grande dia, desses que não temos como prever, se serão épicos ou mais do mesmo. Sim, esses preparativos aconteceram ao longo das últimas semanas. Hoje o relógio foi reiniciado. Zerei o cronômetro, porque esporte envolve tempo.
Os relógios foram sendo disparados ao longo do dia, de forma incessante, desencadeando os mais diferentes tipos de emoção. Nas primeiras conversas que tive com parceiro de longa data, ficou claro que teria que antecipar o disparo do cronômetro. Em lugar da estréia da Pimenta da Seleção de Ancelotti e a primeira partida da final da NBA, o ponteiro me levou para Europa. Não me decepcionei. A partida entre Espanha e França foi um esplendor.
Após a conquista pelo PSG da Champions League, pairava um sentimento um pouco exagerado sobre a ascensão do futebol francês, baseado na periferia de Paris e de sua legião de imigrantes a representar um lugar cada vez mais hostil aos estrangeiros. O controle remoto da partida seguiu nas mãos hispânicas, que ditavam com facilidade o placar. Até quase o final do jogo, o acachapante 5 X 1 não espelhava as oportunidades de lado a lado.
Mas, como o negócio é “conversão”, a França deixou a desejar. Ainda que tenha se livrado do vexame e criado a falsa sensação de que alcançaria o atual campeão da Europa, foi uma falsa impressão. No computo geral, duas bolas na trave e números equivalentes? De um lado um jogo fácil, do outro um esforço enorme. Passou quem tem hoje o garoto prodígio que desequilibra, Yamal. O mais promissor, que já se tornou realidade. As falhas defensivas não são computadas, ficam no meu caderno de anotações.
Na sequência, o choque de realidade, um Equador X Brasil. Uma verdadeira guerra campal, com imposições físicas, baixo nível técnico e uma coroa de erros. As escolhas deram o cheiro daquilo que veríamos. Jogar com três volantes e sem armadores, garantindo um empate na casa de um adversário incapaz de ganhar conduzia ao empate, no estilo Cecília poeta da frase “não sou alegre nem sou triste”. Ter jogadores em campo que não sabem chutar a gol é entristecedor. Isso não mudará, apenas nas imagens do jogo da partida anterior. Então, poderia ser pior, se o adversário fosse um pouquinho melhor. O mais inusitado, o conserto de uma bandeira de escanteio, com nova tecnologia e empate que mantém a escrita no caos verde e amarelo.
Terminar com OKC e Indiana foi a cereja do bolo. Com a precisão que apenas os relógios das quadras de basquete possuem, quando o assunto é esporte coletivo, as mãos de Hali-Hali funcionaram outra vez, como já haviam feito contra o NYK. Tal como o técnico demitido, do adversário anterior, que não pediu tempo, os egos envolvidos desperdiçaram dois tempos que garantiriam a preservação da vantagem, em torno de 12 pontos no 4o e derradeiro período. É mais comum do que parece, perder vantagens para si mesmo. Aconteceu com o Vasco, numa partida recente contra o Operário, onde o empate acabou levando para penalidades e não fosse o goleiro pegando 3 bolas, vaca pro brejo. Há momentos onde quem levar mais a sério ou tiver mais perna, acaba atropelando.
Quem foi atropelado, vai parar no hospital, sem saber sequer de onde veio a trombada. Em certos casos, o efeito psicológico é de dupla direção: para o favorito, a perda de confiança; para a zebra, o clichê “yes, we can”. Somando os dois efeitos, toda a cena da série muda. Antes da partida, tive a oportunidade de ler os palpites da imprensa especializada americana, USA TODAY, ESPN, NBA.COM e NBC Sports. Era mais de duas dezenas de profissionais, declarando favoritismo da ordem de 5 a 6 para o OKC.
Fazer seus oponentes perderem em casa tem um algoz.
Seu nome é Indiana.


