NO EPICENTRO DESSA CONFLUÊNCIA HISTÓRICA BRASIL-ESCÓCIA

Seu Danau era um escocês completamente apaixonado por futebol. Veio trabalhar numa fábrica de tecidos instalada no Brasil, no bairro de Bangu. Com projeto estrangeiro, planejada nos moldes da Cidades Operárias comuns no Japão e subsequentemente na China, o lugar tinha de tudo, inclusive um campo de futebol, sem o qual não se pode aproveitar a bola para partidas, no máximo o altinho.

Já não há dúvida, as primeiras peladas aconteceram pelas mãos de um cidadão da Escócia, país que assina também o famoso uísque de boa leva, meio desaparecido em tempos de Johnny Walker.
A cartolagem burocrática, as federações, os contratos, hoje milionários, deixamos para os paulistas. Por aqui preferimos as peladinhas, deliciosas, o golzinho, o futebol de salão, o futvôlei, a íntima relação com a redonda.

Coube a essa paixão, libidinosa e malevolente, uma derivada local, de um time de futebol, nasceu a Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel. A bateria nota 10 do Mestre André com lances rebeldes no repinique da criatividade, equivalente ao drible desconcertante, porque desconhecido.

Por essas bandas as palavras futebol, samba, carnaval e alegria são indissociáveis. Por aqui recriamos, misturamos, desorganizamos pra reorganizar, como diria Chico Science, homenageado pela Grande Rio no Sambódromo esse ano.
Por aqui não adotamos o uso da saia e da flauta de fole, marca registrada das Terras Altas escocesas.

O kilt e a bagpipe foram substituídos pela bola e pandeiro, numa integração rítmica perfeita, em sua imperfeição magistral. Nossa identidade cultural está firmada, samba e futebol. Assistimos Garrincha, a alegria do povo no Maracanã, numa história de amor onírica, com Elza Soares desfilando na Sapucaí. Essa é nossa verdadeira versão do clássico universal Orfeu.

Mais uma partida de ataque contra defesa, entre um país que por mais de duas décadas não visitava a Copa do Mundo, contra um país que nunca ficou de fora, e parece que começou a olhar com mais seriedade uma competição. Sair na fase de grupos já não era opção, antes do início da partida.

Que o Brasil seja mais, na soma de todos.

Da série: CARTELAS DO CARTILHA
APRENDA A JOGAR BEM