Em 2014 o Brasil hospedou a Copa do Mundo da FIFA. As partidas aconteceram em 12 estádios. Visitei uma boa parte deles, com o interesse no campo de futebol, mais especificamente no gramado. Por ter morado em Brasília e jogado muita bola por lá quando mais jovem, sabia que no período de chuvas a grama ficava linda e na época da seca, desaparecia.
Em botânica, a família das Gramíneas é constituída pelos capins, gramas ou relvas, que representam quase 20% da vegetação da Terra. O futebol melhor praticado do mundo depende de campos com essa cobertura verde. O desafio para quem organiza as competições é dar as melhores condições para que se realize o melhor espetáculo.
Numa de nossas transmissões, observando o caso do estádio Mané Garrincha, considerado um exemplo de sustentabilidade – e até premiado por isso – ficou claro que isso só iria acontecer caso uma empresa como a EMBRAPA fizesse um trabalho de melhoramento genético, associado a manutenção específica que desse ao campo uma grama mais digna.
Por ocasião dessa mesma Copa, fui delegado representando o Estado do Rio de Janeiro, na maior feira de negócios de futebol do mundo, a SOCCEREX. Reuni um grande número de informações, com o objetivo de transformar Teresópolis em uma CIDADE ESPORTIVA. Contando com o apoio do amigo Demerval Casemiro, visitamos desde o CT da Seleção Canarinho até os campos onde lixo era jogado na beira. A intenção era homogeneizar as condições de uso com tecnologias capazes de preservar requisitos mínimos para a prática. A grama sintética foi avaliada, empresas como a Soccer Grass e a Big Sports Grass, entre outras apareciam como opção com diferentes qualidades e preços.
Pula no tempo, dez anos depois, em Padre Miguel, novos tempos. Hoje acontecerá a inauguração no campo do CREIB da nova grama sintética, substituindo aquele padrão antigo, que no calor já queimou a sola dos meus pés no SESC de Vicente de Carvalho. A durabilidade de pisos de uso intensivo só é garantida com novas tecnologias. A própria CBF, durante esse período criou campos sintéticos de alto padrão no seu CT.
Nada disso no entanto muda um fato: a grama natural continua sendo a melhor e mais prazerosa forma oferecida aos melhores atletas do mundo. Basta olhar para a Europa, campos impecáveis, partidas de dar água na boca. Por aqui, baixamos a guarda e aceitamos como solução os campos sintéticos e híbridos, que sabidamente danificam atletas de alta performance.
Nessa Copa nos EUA assistiremos uma revolução genética nos gramados dos 16 estádios, distribuídos por 3 países de condições climáticas totalmente diferentes. A força tarefa envolvida ainda teve que lidar com oito estádios com grama sintética e cinco deles com teto coberto, para desenvolver a nova espécie de grama. Os cientistas responsáveis são da Universidade do Tennessee e da Universidade de Michigan.
Enquanto por aqui nos contentamos com as condições medíocres de nossos gramados esburacados, tornando “vantagem” ao time de mando de campo as tramóias, a humanidade evolui. De Miami a Vancouver a bola vai rolar do mesmo jeito. Sim, porque não adianta uma chuteira de altíssima performance, uma bola padrão NASA e uma pista de jogo no nível quebra-coco. Ao longo de anos, foram feitos mais de 170 experimentos! A sofisticação não tem limites. A grama natural é plantada de forma híbrida, enfronhando suas raízes em fibras de plástico, além de tapetes sintéticos. Mas essa coisa de louco não para por aí…
A grama não é plantada em solo, mas em cima de plástico, dando consistência para transporte das placas que montam o mosaico do campo nos estádios. Os pesquisadores utilizam equipamentos altamente sofisticados para – tal qual fazemos com a bola – testar e “calibrar” a grama. Máquinas mimetizam impactos e câmeras de alta resolução medem a resistência rotacional do piso em relação a bola.
Como a prática é o que valida a teoria, só os atletas poderão dizer se melhorou para eles. Na real, é a primeira vez, saberemos depois. Garanto que o Neymar preferirá esses gramados do que aquele onde o Santos jogou no Paraguai pela Sul-Americana, uma vergonha.
A disparidade econômica traz consigo alguns abismos. Entendo que não se pode misturar óleo e vinagre. Vejamos então a questão climática. Serão utilizadas três estratégias de manutenção: a primeira para lugares a céu aberto, e temperaturas mais altas, com um corte de grama mais curta facilitando secagem e aumentando a densidade do gramado; a segunda para climas mais frios e estádios cobertos; a terceira para estádios fechados, com iluminação artificial e sistemas de ventilação de especializados, além de controle de temperatura que mantenha a grama viva.
O berço dessas obras de arte foram as fazendas do Colorado, Washington e as Carolinas do Norte e do Sul. Uma vez embaladas e acondicionadas para dormir nos caminhões, serão plantadas para o esplendor que se aproxima nesse que é o maior e mais rentável esporte do planeta.
Que me perdoem os astronautas, mas A TERRA É VERDE.
Da série: CARTELAS DO CARTILHA
APRENDA A JOGAR BEM


